Manoel Fiel Filho. Presente!
Hoje o Estadão, tradicional porta-voz da direita brasileira, lembra os 45 anos da morte do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho. Em 16 de janeiro de 1976 ele foi procurado na Metal Arte Indústrias Reunidas, na Moóca, por dois agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), conduzido até sua casa na Vila Guarani em uma operação de busca e apreensão, e depois encaminhado ao DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), rua Tutoia 921, no Paraíso. Ali ele foi torturado até sua morte, registrada como suicídio pelos agentes da ditadura. História semelhante se passou com o estudante Alexandre Vannucchi Leme em 1973, o tenente José Ferreira de Almeida e no mesmo ano, 1975, o jornalista Vladimir Herzog (judeu iugoslavo que sobreviveu ao nazismo na Croácia, mas não ao fascismo no Brasil). Em 1979, outro metalúrgico, Santo Dias da Silva, foi morto pelo regime militar. E assim aconteceu com outros, mais de 400, operários, estudantes, professores, camponeses, soldados, artistas, cidadãos que direta ou indiretamente fizeram parte da resistência à ditadura civil-militar de viés nazifascista de 1964 a 1985. Essa ditadura foi apoiada por cidadãos de bem, cristãos, empresários da mídia, da indústria e do comércio, além da classe média ignorante, hipócrita e preconceituosa - enfim, os mesmos que elegeram e apoiam hoje em dia o bolsonarismo.
Alguém poderá perguntar por que eu faço questão de lembrar o passado, da mesma forma que Bolsonaro, quando afirmava que "quem procura osso é cachorro", referindo-se aos desaparecidos da ditadura militar. Cito a seguir algumas razões:
- desde pequeno eu lia jornais e revistas dos patrões da minha mãe, então diarista em casas da classe média. Como não tinha com quem nos deixar, ela me levava com meu irmão caçula às casas dos grã-finos da época, onde varria, encerava, lavava louça, lavava e passava roupa. Desde então, nunca abri jornal apenas nas seções de esportes e entretenimento.
- meus avós maternos me doutrinaram com o Novo Testamento, onde o que mais me impressionou, além do Sermão da Montanha, foi a resposta de Jesus a um homem que tinha muitas propriedades: "vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres" e "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus".
- no colegial eu torci pela vitória da oposição ao regime, na época representada legalmente pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), nas eleições gerais de 1974.
- em 1976, quando era calouro de Física na UNICAMP, tive meus primeiros contatos diretos com o movimento estudantil e a resistência ao regime nazifascista.
- em 1980, já cursando Química na USP, filiei-me ao Partido dos Trabalhadores, integrando o embrião de um núcleo de base e um movimento popular paralelo à associação de moradores de uma vila pobre de Itaquera, zona leste de São Paulo.
Dessa forma, aos patrulheiros ideológicos e aos guardas da esquina, já confesso que, embora discorde de qualquer ditadura, seja de direita ou de esquerda, reconheço o papel dos partidos de esquerda na defesa da democracia não apenas na Ditadura Militar (1964-1985) como também na República Velha (1889-1930) e na Era Vargas (1930-1945). Consequentemente, não tenho dúvidas de que os melhores governos da nossa História foram os de Dutra, Vargas, Juscelino, Jango e Lula, incluindo o primeiro mandato de Dilma.
Como democrata e progressista, que você pode chamar de esquerdista mesmo, recomendo a todos que cabularam ou mataram as aulas de História, esse documentário sobre o companheiro Manoel Fiel Filho: https://youtu.be/xv0SFgf4iDE

Comentários