Em Nome do Senhor Jesus

Quando era pequeno frequentei a CCB (Congregação Cristã no Brasil), levado por minha mãe e pela mãe dela. Naquele tempo, os chamados de crentes eram discretos, talvez até envergonhados por serem uma minoria.  Eram gente pobre, homens de terno, mulheres de vestidos ou saias longas e cabelos compridos, indo e voltando das igrejas, a pé, com uma bíblia na mão.  Boa parte deles era pentecostal e neopentecostal.  Evitavam “as coisas do mundo”, não ouviam música, não viam TV.  A exceção era ouvir o noticiário no rádio.  Diziam-se “apolíticos”, como se isso fosse possível.  Anos depois, já conhecendo melhor a realidade, lembrava nitidamente que, em plena ditadura, em pleno governo sanguinário de Costa e Silva, e Médici, os crentes oravam e pediam a Deus que abençoasse aquelas autoridades. 

Os anos se passaram. O rebanho cresceu, virou gado.  O que era brega, ficou chique.  Abriram-se muitas igrejas.  A fé virou negócio. Pastores extorquiram os fiéis, abriram negócios de fachada, lavaram dinheiro.  Alguns viraram políticos.  Outros compraram políticos, através da compra de jornais, emissoras de rádio e de TV.  Ficaram bilionários.  Como a Marcha para Jesus, o mercado de música gospel faturou e continua faturando milhões.  O livro The Faith Healers, de James Randi, e o filme Leap of Faith ("Fé demais não cheira bem"), de Richard Pearce, ilustram muito bem a prática e a ética protestante.  

Como ilustra Guy Ritchie, no comecinho do filme “Snatch: Porcos e Diamantes”, um erro de tradução, confundindo “virgem” com “em idade de se casar”, levou ao surgimento da Santa Igreja Católica e, consequentemente, com a Reforma no século XVI, do protestantismo.  Já no século XIX, Max Weber explica o capitalismo como consequência da ética protestante. No final dessa época, chamada de fin de siècle, surgiram na Europa as bases ideológicas do fascismo – entre elas, o kardecismo e o darwinismo social.  Logo a seguir, no final da primeira década e no início da segunda década do século XX chegaram ao Brasil, no sul e sudeste, a CCB por meio do ítalo-americano Luigi Francescon e, no norte e nordeste, a AD (Assembleia de Deus) por meio dos sueco-americanos Daniel Berg e Gunnar Vingren. 

Nos próximos 50 anos, o uso carismático de catarse e astuciosa manipulação de emoções levou ao aumento do rebanho e consequentemente, através da “doação espontânea para a obra de Deus”, estufou os cofres dos pastores.  Já no pós-guerra, as agências de inteligência e contrainteligência enxergaram outro propósito no protestantismo: a doutrinação ideológica no contexto da Guerra Fria.  Enquanto a Igreja Católica convivia bem com a laicidade, apoiando a liberdade e a democracia, as seitas serviram de uma espécie de quinta-coluna para o imperialismo ianque.  Hoje parte delas ainda tenta negar a política, o que é o caso da CCB, enquanto a maioria aceita, promove e faz parte da política - este é o caso da AD.  Esta criou o PRC (Partido Republicano Cristão).  Ambas apoiam o nazifascismo bolsonarista. Exemplos: 

 

O brado nazista "Deutschland über alles" inspirou o grupo golpista de capitães paraquedistas chamado de Centelha Nativista, do qual fizeram parte Bolsonaro e Mourão, e finalmente o bordão fascista "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

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