Zumbilândia Tropical
O Brasil chegou ao seu auge econômico no primeiro mandato da
presidente Dilma, eleita em 2010, após a grande expansão ocorrida nos oito anos
do governo Lula, só comparável talvez ao período da Quarta República
(1946-1964), em que se destacaram os presidentes Eurico Gaspar Dutra, Getúlio
Vargas, Juscelino Kubitscheck e João Goulart. Afastada do poder desde o governo
FHC, em 2013 a direita se infiltrou no Movimento Passe Livre e adotou a tática
black bloc em um grande esforço para impedir a reeleição da presidente Dilma no
ano seguinte, 2014. O candidato da direita, um playboy usuário, ilustrou
bem o que viria pela frente: Dilma não poderia vencer; se
vencesse, não tomaria posse; se tomasse posse, sofreria impeachment; se não
sofresse impeachment, não governaria – sangraria até o final. Mesmo com todo o
apoio do grande capital, nacional e internacional, e da mídia sonegadora e
venal, a direita não conseguiu evitar a vitória de Dilma. O restante da
história todo mundo já sabe. Depois do golpe de 2016, desta vez com as
togas em vez das fardas, veio o governo medíocre de Temer e, pior, a eleição do
miliciano nazifascista Bolsonaro auxiliado por uma quadrilha de juízes e
procuradores - um deles chegando a ser ministro da Justiça!
Esta breve introdução serve
para ilustrar a metamorfose ocorrida em uma grande parcela da sociedade
brasileira que, em apenas cinco anos, deixou de ser cordial (conforme Sergio
Buarque de Holanda, na obra Raízes do Brasil, 1936) para ser bárbara, odienta,
rancorosa. Este novo brasileiro, muitas vezes diplomado, mas ao mesmo
tempo ignorante, agora não se acanha de expor o preconceito e a hipocrisia. Tenta se
passar por cristão, cidadão do bem, mas é adepto do supremacismo, do
autoritarismo, da violência, da tortura e das armas, estando muitíssimo bem
representado pelo genocida que escolheu na primavera de 2018. Sua melhor
representação seriam os ratos de Hamelin ou os mortos-vivos, os zumbis
ideológicos que se arrastaram pelas avenidas de nossas cidades, atrás de patos
dos barões da indústria, do comércio e dos bancos. Marcharam vestidos de
verde e amarelo, implorando pela volta do fascismo e pela perda de direitos,
iludidos pela promessa de vida eterna sem corrupção. Instalou-se então a
República de Weimar e nossas metrópoles talvez tenham se transformado em reais
Raccoon City, especialmente com a proliferação da covid, chamada de gripezinha
ou resfriadinho pelo nosso Duce, nosso Führer tupiniquim. Aliás, neste
Brasil bizarro, o herói dos milicianos quer convencer a todos que a
cloroquina é o antídoto, a cura, a panaceia.
Se prestarmos bem atenção à
História, observaremos que muitos escritores nos mais variados campos
culturais, seja na ciência, na religião, na ficção, de certa forma anteciparam
acontecimentos que acabaram se concretizando, que são atuais ou estão prestes a
ocorrer. Os amantes do mistério poderão dizer que alguém do futuro
retornou ao passado só para entregar mensagens de advertência. E o mundo
está ficando cada vez mais parecido com aquilo que os loucos previram.
Resta perguntar: a ficção influencia a realidade ou é a realidade que
influencia a ficção? A transformação da sociedade brasileira foi uma
zumbificação ou uma invasão de corpos (ou mentes) promovida por todos os tipos
de mídia?
Para não terminar o assunto de forma tão pessimista, citarei uma obra de ficção, além daquelas já mencionadas indiretamente, que ilustra bem o momento atual: The Last of Us 2.

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