Pato N'Água, o Samba Paulista e o Fascismo
Outro dia fui caminhar pelo bairro para esticar as pernas
depois do trabalho. O Bar do Freguês não estava
atendendo por conta do horário estabelecido pela prefeitura de São
Bernardo. Resolvi então tentar a sorte
no Bar do André. No
caminho, pensei: “Quer saber? Deve estar fechado também. Vou para casa.” E virei
a esquina. Já que o Bar do Jorge estava
meio aberto, perguntei se ele estava atendendo.
Estava. Legal, pude tomar aquela Brahma que em casa, sozinho, não tem
graça. Havia vários assuntos sendo comentados
por diversos fregueses - gente do bairro, eu acho. Como frequento pouco, não
conheço o pessoal, mas só alguns, de vista. Exceto o Roque, que anda
sumido. Perguntei dele, mas ninguém
sabia. Faz tempo que não vejo a velha
guarda que trabalhou com tintas e nas montadoras da região. Tudo bem. Os tempos
são outros. São Bernardo é um prato
cheio para historiadores e sociólogos.
Explico em seguida.
Há 11 anos um fato expôs o perfil reacionário, conservador,
preconceituoso e hipócrita da classe média do ABC. Foi quando uma aluna foi
assediada, vaiada e hostilizada pelos colegas simplesmente por usar um vestido
rosa curto. A população tradicional de
São Bernardo é formada por colônias de imigrantes italianos que se dedicaram a
trabalhar com restaurantes e fábricas de móveis. Com a implantação da indústria
automobilística houve uma forte demanda de mão de obra. Dizem que as montadoras
procuravam operários de casa em casa.
Assim começou uma segunda onda de imigrantes, desta vez os
nordestinos. Enquanto no Rio eles são
conhecidos por paraíbas, em São Paulo são chamados de baianos, não importa de
qual estado sejam oriundos. O resultado disso tudo é que temos por um lado uma
classe média branca, com formação técnica especializada e bons cargos nos
setores táticos e estratégicos de grandes empresas. E, por outro lado, uma classe pobre negra e
mestiça, operária, concentrada no setor operacional dessas empresas e no
comércio. Para resumir, de um lado,
pelegos e capatazes; e de outro, a peãozada.
O sindicalismo cresceu, trouxe emprego para muita gente, conquistou
ganhos salariais em plena ditadura, fomentou lideranças políticas importantes
para a redemocratização do país. Mas
hoje isso tudo é desprezado por uma classe média ignorante, preconceituosa e
hipócrita. Essa classe é eleitora do
Maluf, do PSDB e do bolsonarismo.
Pois é, felizmente, depois de discutir civilizadamente com
alguns bolsomínions, eis que para minha surpresa, conheci o professor Anderson e
um pouco mais do são-paulino Jorge, dono do estabelecimento. Foi através deles que tive contato pela
primeira vez com a história do Pato N’Água.
Este foi um famoso mestre de bateria da Vai Vai – na época dele, o
mestre de bateria era chamado de apitador.
Além de sambista e fundador da Gaviões da Fiel, ele foi
capoeirista. São Paulo, além de ter o
próprio samba, também tinha a própria capoeira, chamada então de tiririca. Mas o fato é que em 1969, no governo
sanguinário de Médici, Pato N’Água foi encontrado morto em uma lagoa, a leste
da capital, e há indícios de que ele foi assassinado pelo Esquadrão da Morte,
uma milícia especializada em matar gente negra e pobre sob o pretexto de
exterminar bandidos. E não foi Adoniran Barbosa e nem Paulo Vanzolini que o
imortalizaram, mas Geraldo Filme em um samba composto após o relato de Plínio
Marcos.

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