A Onda Marrom e a Volta à Idade Média
Estou lendo “O Livro das Religiões” (Religionsboka, 1989),
dos noruegueses Hellern, Notaker e Gaarder (que escreveu “O Mundo de Sofia”). Ocorre-me que é possível que o medo do
desconhecido, do inusitado, do diferente, do novo seja natural para o ser
humano. Talvez por isto tenham surgido
as religiões. Quem sabe se o animismo
não foi uma forma primitiva de negar a morte ao atribuir espíritos, como entidades
antropomórficas, aos animais, às plantas, aos rios, às montanhas, ao sol, à
lua, às estrelas? No Oriente Médio esse politeísmo transformou-se em monoteísmo,
base do judaísmo, do islamismo e do cristianismo. Esta
última religião criou o dogma misógino da Santíssima Trindade. Mais tarde, depois
do Iluminismo, no século 19 o positivismo e o darwinismo foram a base do
surgimento de ideologias “científicas” que apregoam o aperfeiçoamento “de tudo
e de todos”. Isto culminou em eugenia,
racismo, imperialismo, sionismo, fascismo, nazismo. A contrapartida foi o
surgimento dos movimentos libertários por direitos civis, pelo feminismo, pela
paz e pelo meio ambiente.
Agora, em pleno século 21, era da comunicação e da
informação, podemos constatar o renascimento do pensamento retrógrado que, como
uma maré alta ou mesmo um maremoto, invade até mesmo os países mais progressistas,
fenômeno conhecido na Europa por onda marrom. No Brasil esta onda marrom vem
crescendo desde 2010. A direita manipula
corações e mentes em um esforço enorme, com muito dinheiro e recursos, já que
detém o monopólio das comunicações, para voltar ao poder e interromper a agenda
progressista iniciada no governo Lula. Frustrada
na maioria das eleições majoritárias, a direita partiu abertamente para o
golpismo, após o sucesso nas eleições proporcionais, em que elegeu a maioria
reacionária. O atual Congresso, com sua
agenda conservadora, trabalha pelo impeachment e pelo parlamentarismo. Não é à
toa que lá estão Eduardo Cunha, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e a chamada
bancada BBB, isto é, do boi, da bala e da bíblia. Os ataques frequentes a indígenas, imigrantes
(principalmente africanos e centro-americanos), nordestinos, sem terra, sem
teto, homossexuais, políticos da situação e qualquer um que ouse defender o
governo federal e a presidenta, ilustram de forma clara o crescimento da onda
marrom entre nós.
Há pessoas que acham que a História é coisa do passado. Não, a História acontece agora, hoje. Amanhã, em um futuro não muito distante, os
dias de hoje serão tema de estudo em aulas de História. Assim como hoje estudamos a República de
Weimar e o surgimento do nazismo, com os ataques a judeus, ucranianos, eslavos,
sérvios, ciganos, lésbicas, gays, indivíduos bi- e transexuais, portadores de
deficiências físicas e mentais, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová,
maçons, negros, mestiços, sindicalistas, esquerdistas e dissidentes. Recentemente, vimos o ataque verbal de um
seguidor do Bolsonaro à presidenta em Stanford, os ataques racistas à Maju, a moça
do tempo do JN, no Facebook, a agressão daquele “retardado online” ao frentista
haitiano no Rio Grande do Sul, os ataques a Fernando Morais e a Jô Soares, a
menina apedrejada por evangélicos na saída de um culto de Candomblé, o túmulo do
Chico Xavier sendo vandalizado e tantas outras demonstrações de intolerância
ideológica, filosófica, política e religiosa.
Qual a diferença? Será que “evoluímos”? Nada. Apesar de todo o progresso, ainda
presenciamos todas as facetas da direita: homofobia, misoginia, racismo,
xenofobia, islamofobia, antissemitismo (lembrar que árabe também é semita),
machismo, sexismo, autoritarismo, desprezo pela democracia, intolerância e ódio
a quem pensa ou é diferente.


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