Para entender o Pato Donald e os dias atuais
“Para leer al Pato
Donald” foi escrito pelo argentino Ariel Dorfman e pelo belga Armand Mattelart,
e publicado no Chile dois anos antes do golpe fascista que derrubou o
presidente Salvador Allende em 11 de setembro de 1973. O Pato Donald (Donald
Fauntleroy Duck) foi criado pela Disney em 1934. Virou revista em quadrinhos no Brasil em 12
de julho de 1950, publicada pela Editora Abril, fundada naquele ano pelo
americano Victor Civita, em sociedade com brasileiros, a exemplo do irmão
Cesare, que já era editor na Argentina. Abril se refere ao início da primavera
(nome inicial da editora) no hemisfério norte.
Alguns anos antes, em plena II Guerra Mundial, os americanos estavam preocupados
com a influência das Potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) sobre a
América Latina, principalmente Brasil, Argentina, Chile e Peru. No âmbito da
Política da Boa Vizinhança, na comitiva de Rockefeller, Disney e RKO produziram
“Saludos Amigos” com première mundial no Rio em 24 de agosto de 1942, dois dias
após a adesão de Getúlio Vargas à Declaração das Nações Unidas (origem da ONU, dos
Aliados). O livro de Dorfman e Mattelart ilustra bem a relação da comunicação
de massas e o colonialismo cultural.
Além das cartilhas “Caminho Suave” (Branca Alves de Lima) e “História
de Paulo e Lalá” (Guiomar Roque de Siqueira), foi com “Mickey, revista mensal
de Walt Disney” que aprendi a ler, graças à professora dona Ametista. Ela tranquilizou meus pais, que acreditavam
que gibis eram obras underground, impróprias para crianças. Apesar de ter
parado de comprar e ler conservo até hoje minha coleção de Mickey. Conhecer o “Para Ler o Pato Donald” foi uma
experiência semelhante àquela que tive ao descobrir brinquedos escondidos em
casa, que meus pais tinham comprado para o próximo Natal, quando entendi que
Papai Noel não existia. E também quando, nos anos 70, entendi que vivíamos sob
uma ditadura fascista apoiada pela mídia, especialmente aquele jornal que se
diz a serviço do Brasil e aquela TV que faz aniversário hoje.
A lição aprendida é que devemos ter muito cuidado com a
mídia e o que ela propaga, sob risco de acabar odiando os oprimidos e amando os
opressores, como disse Malcolm X. Mesmo
não sendo católico, concordo integralmente com o que disse o papa Francisco:
“Depois, são tantas as virtudes. Acenei para isto no início: seguir a estrada da bondade, da verdade e da beleza, e tantas virtudes neste caminho. Mas existem também os pecados da mídia! Permito-me falar um pouco sobre isto. Para mim, os pecados da mídia, os maiores, são aqueles que seguem pelo caminho da mentira e são três: a desinformação, a calúnia e a difamação. Estes dois últimos são graves, mas não tão perigosos como o primeiro. Por quê? Vos explico. A calúnia é pecado mortal, mas se pode esclarecer e chegar a conhecer que aquela é uma calúnia. A difamação é um pecado mortal, mas se pode chegar a dizer: ‘esta é uma injustiça, porque esta pessoa fez aquela coisa naquele tempo, depois se arrependeu, mudou de vida’. Mas a desinformação é dizer a metade das coisas, aquilo que para mim é mais conveniente e não dizer a outra metade. E assim, aquilo que vejo na TV ou aquilo que escuto na rádio não posso fazer um juízo perfeito, pois não tenho os elementos e não nos dão estes elementos. Destes três pecados, por favor, fujam! Desinformação, calúnia e difamação.”



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