A Onda Conservadora
Segundo o médico e professor Daniel Siegel, da UCLA, a
remodelação do cérebro é a causa do comportamento impulsivo e rebelde da juventude,
e mudanças são necessárias para que se continue jovem e saudável. Imagino que o amadurecimento seja também uma
mudança necessária, e muito. Todo mundo
deve conhecer alguém que se mantém criança a vida toda, no bom e no mau
sentido. E não é difícil encontrar jovens
“envelhecidos”, que agem “como nossos pais”.
Em 2008 o alemão Dennis Gansel dirigiu o filme “A Onda” (die
Welle), com roteiro de Johnny Dawkins, roteirista também de outro
filme com o mesmo nome (The Wave, Alex
Grasshof, 1981). Em 2011, David Jeffery
dirigiu o documentário Lesson Plan sobre
o mesmo tema. Todos se baseiam na obra de Ron Jones, sobre uma história real.
O professor colegial Rainer Wenger (Jürgen Vogel) faz um
experimento para demonstrar como é a vida sob uma autocracia, definida por um
de seus alunos como a forma de governo em que um indivíduo ou um grupo
concentra poder suficiente para dominar o Legislativo. Vale a pena refletir um
pouco sobre suas causas, princípios, características e símbolos:
- Descontentamento frente a problemas sociais verdadeiros ou destacados pela mídia, como injustiça, corrupção, desemprego, inflação.
- Indiferença à política, despolitização, analfabetismo político. Depois do rock ‘n’ roll alienado no começo do filme, vemos o seguinte diálogo entre jovens de classe média: “Contra o que se deve revoltar hoje em dia? Hoje nada tem mais importância, certo? Todos já têm com o que se distrair, divertir. O que falta à nossa geração é um objetivo comum, que nos una a todos. Este é o espírito da época. Olhe em volta de você. A pessoa mais procurada no Google é quem? A p... da Paris Hilton”.
- Ideologia, seja filosófica, religiosa ou política, levada ao extremo.
- Espírito de comunidade, união, grupo, seita, nacionalismo extremado.
- Hierarquia, supervisão, liderança.
- Respeito, culto, disciplina.
- Ação, reação, participação, movimento, marcha.
- Uniformização, estilo, grife e marca de roupas, acessórios, utensílios, equipamentos.
- Identificação, autodenominação, bandeira, brasão, insígnia, selo, hino, grito de guerra, postura, gesticulação, saudação, senha, tatuagem, adesivo, graffiti, perfil em redes sociais, site, homepage.
Hoje há uma discussão sobre se estamos vivendo sob uma onda
conservadora ou não. Se considerarmos o
avanço da porcentagem de votos nulos, em branco e abstenções, então não podemos
concluir que existe necessariamente uma onda conservadora, mas um descrédito
crescente na Política como forma de aprimoramento da sociedade e, portanto, um
envolvimento cada vez menor, especialmente dos jovens. Por outro lado, vemos “estarrecidamente” o
crescimento da presença da direita, tanto nas eleições proporcionais como nas
majoritárias. É o caso das bancadas
conservadoras no Legislativo. E da
eleição de reacionários, principalmente nos estados de Santa Catarina, Paraná,
Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.
São Paulo deu mais votos ao candidato playboy, elegeu o vampiro da bolinha
de papel, reelegeu no primeiro turno o servo da Opus Dei, elegeu deputado estadual
certo coronel evangélico e deputado federal certo pastor evangélico. E o Rio de Janeiro elegeu deputado federal um
reservista adepto da violência, da tortura, do machismo, do racismo, da
homofobia. É preciso dar nome aos bois?
É muito perigoso quando se tenta fazer política com
filosofia e com religião, sem partidos políticos como sugeriram as
manifestações de vandalismo em 2013, ou como a reedição da “Marcha da Família
com Deus pela Liberdade” promovida pela classe média branca que elegeu o
Congresso mais conservador da história do país e que não conseguiu eleger o
candidato da mídia. Essa mídia, cujos capi sonegam e lavam dinheiro em paraísos fiscais, teme a suspensão
da verba publicitária estatal. Por isso
manipula e promove o golpismo. Para ela,
lembrando o que disse uma vez Lyndon Johnson, presidente americano que nos anos
60 enviava jovens para morrer no Vietnã e negava direito de voto aos negros, se
numa manhã a Dilma andasse sobre as águas então manchetes à tarde e à noite seriam:
“a presidente não sabe nadar”. Claro que
manchetes assim no dia seguinte serviriam apenas para se forrar gaiolas, como
fazemos com certos jornais que mentem ao afirmar que são isentos,
independentes, plurais e apartidários, mesmo tendo apoiado logisticamente a
ditadura militar fascista que os milicos chamam de “revolução de 31 de março
1964”, acontecida em primeiro de abril, dia da mentira, daquele ano.
Veja, com o perdão da palavra, a versão de “A Onda” em
espanhol no YouTube.


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