A esperança sob perspectiva histórica e ideológica
Quase todo mundo já deve ter ouvido falar que na vida há males que vêm para o bem. Já fazia pelo menos meio século que a cadela do fascismo não dava crias no Brasil. Mas em apenas cinco anos, de 2013 a 2018, o cio conservador se apossou dos símbolos nacionais e usou o discurso de combate à corrupção e defesa da pátria, da família e da religião para tirar do poder um governo progressista e eleger uma marionete da extrema direita: o miliciano genocida que hoje ocupa o Planalto, “imorrível, imbroxável, incomível”.
Como na mitologia grega, a abertura da Caixa de Pandora, que foi o golpe de 2016, trouxe miséria, pobreza, contenda, violência, inveja, vício, sofrimento, fome, doença e morte. Desfez-se a fantasia do brasileiro bonzinho, gentil e cordial. Saíram de armários, de baixo de pedras, de buracos, da escuridão e das trevas o chauvinismo, a xenofobia, o racismo, a homofobia, a misoginia, o autoritarismo, a teocracia e toda sorte de visões reacionárias. Como isso aconteceu?
Com o advento da primeira revolução industrial (1760-1850, capitalismo industrial), a marginalização do proletariado provocou uma intensa migração do Velho Mundo, a Europa, para o Novo Mundo, a América. Esse movimento persistiu até a segunda revolução industrial, incluindo a origem do fascismo e a República de Weimar entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Na América Latina, alemães e italianos escolheram como destino, pela ordem, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Brasil, Chile e Argentina. Depois da Primeira Guerra, a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha foi a brasileira, fundada em Timbó, Santa Catarina. Depois da Segunda Guerra, o Cone Sul se tornou o principal destino da ‘rota dos ratos’, patrocinada pela Igreja Católica para combater o comunismo. A seguir estão alguns exemplos de direitistas famosos. Otto Adolf Auchmann trabalhou na Mercedes-Benz e foi preso em Buenos Aires em 1960. Franz Stangl trabalhou na Volkswagen (empresa que apoiou a ditadura militar) e foi preso em São Paulo em 1967. Joseph Mengele foi encontrado afogado em Bertioga em 1979. Klaus Barbie foi contratado pela CIA (pasmem!) para caçar Che Guevara na Bolívia e foi preso em La Paz em 1983. Erich Priebke foi preso em 1994 em Bariloche, cidade onde controversamente o próprio Hitler teria morado.
Infelizmente desconhecida, a História do Brasil é riquíssima, especialmente a chamada primeira Era Vargas (1930-1945), compreendida nos períodos conhecidos por Segunda República (30-37) e por Terceira República ou Estado Novo (37-46). No primeiro período surgiu o integralismo, versão nacional do fascismo e um episódio hilário ocorreu em 1934 em São Paulo: a “revoada das galinhas verdes”, quando os integralistas foram expulsos da Praça da Sé pelos antifas(cistas). No segundo período, contemporâneo à Segunda Guerra, Vargas, a exemplo dos chefes de estado do hemisfério norte, adotou a política de “entregar os anéis para não perder os dedos”, quando então emergiu o trabalhismo como contraponto ao comunismo. Em caso de imprecisão, que me perdoem e corrijam os historiadores e sociólogos.
Após os 21 anos (64-85) do golpe civil-militar patrocinado pela mídia e pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade, vários partidos de direita surgiram da ARENA e até mesmo do MDB. Citando rapidamente, estes são de direita: DEM/Democratas, DC (Democracia Cristã), Novo, PHS, PL (ex- PR/PRONA), PP/Progressistas, PRB (braço da Igreja Universal do Reino de Deus), PRP, PSC, PSDB e PTC (ex-PJ/PRN). Como se vê, os nomes não têm nenhum ou quase nenhum significado ou coerência. Um caso especial de quinta-colunismo ou vira-casaquismo é o Cidadania, ex-PPS (Popular Socialista), ex-PCB (Comunista), do Roberto Freire, linha auxiliar do PSDB.
Os atuais partidos de extrema direita são: PRTB (Renovador Trabalhista), PATRI/Patriotas e PSL (Social Liberal). Há também diversas facções, como a APB (Aliança pelo Brasil), dissidência do PSL que pretende ser o partido 38 (referência às armas), e cerca de um terço da Frente Parlamentar Evangélica (controlada pela Assembleia de Deus). Também há gangues, como Movimento Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre (MBL), além de milicianos, esquadrões da morte e comandos de caça a comunistas. No meio digital, há o Renova Mídia, o Conexão Política, o Terça Livre e a rede social Gab. Entre as concessões públicas de rádio e TV, o destaque é a Jovem Pan, emissora que trocou o jornalismo por sonegação e golpismo.
De fato, esta sopa de datas e siglas é difícil de entendimento para as pessoas que não estão acostumadas à leitura e que se sentem confortáveis com o consumismo, as redes sociais e os programas de esportes e entretenimento via TV e Internet. Ignorância e alienação não deixam de ser felicidade. Se os pais, o padre ou o pastor, o patrão, a autoridade e a mídia falaram, o que há para contestar? Afinal, para o cristão e cidadão de bem, é muito chato, trabalhoso e cansativo buscar informação, pensar por si próprio, adquirir senso crítico e expandir o vocabulário e a cultura.
Mas qual é o bem que resultou dessa tragédia? No fundo da Caixa de Pandora havia a esperança! E devemos nos perguntar: a esperança restou dentro ou fora da caixa?


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