Eu Sou o Número Quarenta e Dois
A última
ditadura militar fascista no Brasil durou 21 anos. Em 15 de janeiro de 1985 foi eleito
indiretamente presidente do país o advogado, empresário e político mineiro
Tancredo Neves. Ao ser eleito, terminou
seu discurso dizendo: “Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas
praças públicas, com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão. Se
todos quisermos, dizia-nos, há quase duzentos anos, Tiradentes, aquele herói
enlouquecido de esperança, podemos fazer deste país uma grande nação. Vamos
fazê-la!”. Mostrou grande habilidade
política para que aquele dia chegasse, já que a extrema direita queria mais 2
anos para João Figueiredo antes da sucessão por eleições diretas,
eventualmente. Mas, como tinha dito
Getúlio Vargas, “no Brasil, não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a
posse!”. Tancredo faleceu 96 dias depois,
misteriosamente. E quem assumiu a
presidência em 15 de março foi José Sarney, também recém-integrante do PMDB,
mas ex-correligionário de PFL, PDS, ARENA e UDN. Assim acabou a ditadura.
Só que não. O
fim da ditadura foi apenas formal, já que a sociedade brasileira, passados mais
29 anos, ainda tem um ranço autoritário herdado dos tempos da colonização. A cultura autoritária, que era apenas da
elite conservadora, ainda hoje persiste nas famílias, nos condomínios, nas
ruas, nas escolas, nas empresas, nas igrejas, nos clubes, nos sindicatos, nos
partidos, nas polícias, na mídia, nas diversas instâncias dos três poderes. Passado tanto tempo, justamente o neto do
moderado Tancredo agora afronta a democracia ao processar mecanismos de busca
na internet, redes sociais e até institutos de pesquisa, responsabilizando-os
por sua enorme rejeição popular e pelo seu terceiro lugar nas pesquisas
eleitorais. De fato, nunca antes na
história deste país a direita concorreu à presidência da república com um candidato
tão fraco. E tão desesperado. Serra, em 2010, fingiu passar mal e chegou até
a fazer tomografia por causa de uma bolinha de papel que acertou sua
cabeça. Muito pior acontece agora, quando
seu desafeto correligionário persegue judicialmente 66 internautas, na
iminência de nem disputar eventual segundo turno mesmo em seu estado natal. Eu sou o número 42, mas na verdade somos
todos 66, os que amam a liberdade, a justiça social e a verdadeira democracia.
Lembrando
Cândido e seu mentor Pangloss, de Voltaire, “tudo vai pelo melhor no melhor dos
mundos possíveis”. Isto é, a boa notícia
é que na hora h, às vésperas das eleições, os candidatos da direita deixam cair
suas máscaras de democratas, revelando o espírito autoritário não apenas deles
próprios, mas também de seus eleitores e da mídia golpista que os apoiam.

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