Além da Vida
Parece coincidência, mas uma semana antes dessa tragédia no Japão vi o novo filme do Clint Eastwood, “Além da Vida” (Hereafter, 2010), e agora estão apropriadamente tirando-o de cartaz por causa de suas cenas iniciais que mostram o tsunami de 2004 no Índico. Estava para comentar mesmo sofre o filme, que achei interessante ou mais exatamente angustiante. Não pela cena do tsunami, mas pela temática. É um drama que envolve George (Matt Damon), operário americano, Marie (Cécile De France), uma jornalista francesa, e Marcus (Frankie McLaren), um menino londrino. Marie sobrevive ao tsunami após uma experiência de quase-morte. O menino perde o irmão gêmeo em um acidente. E George tem habilidades “paranormais”, isto é, ao tocar nas pessoas, sente, vê e ouve seus entes queridos já mortos. Eastwood dirigiu tudo de forma neutra, equilibrada, abordando essa questão sem me parecer engajado. Além da direção e da produção, Eastwood também é responsável pela música, que achei muito apropriada e, certamente, contribuiu para meu sentimento de angústia ao ver o filme. E é sobre essa crença que eu gostaria de refletir um pouco.
É claro que seria maravilhoso que as pessoas não morressem para sempre e houvesse vida após a morte. Esse é um desejo primitivo da humanidade, muito abordado em provavelmente todas as religiões. De forma agnóstica, não posso afirmar que a vida após a morte e a própria divindade existam ou não. Sem dúvida, qualquer que seja a resposta a tais questões, ela tem a ver com o significado de nossa existência e com o mistério da identidade.
Conheci algumas pessoas que professam o espiritismo (ou kardecismo), encarando-o como uma ciência que explicaria todas as religiões. Não vou discutir aqui essa fé propriamente. Mas quero registrar que a eventualidade de haver pessoas ou entidades superiores ou mais “evoluídas” me causa um certo desconforto. Pior quando tal superioridade e maior nível evolutivo estiver relacionada a raças, etnias e culturas. Isso é darwinismo social e, em última análise, puro nazismo, que “justificou” o imperialismo e colonialismo. Não sou biólogo, mas acredito que há uma certa confusão nos conceitos darwinistas, que o próprio Darwin provocou. Isto é, espécies se diversificam o tempo todo num processo de melhor adaptação a uma circunstância, a um habitat etc, de forma que apenas sobrevivem os mais adaptados. Estamos falando de adaptação e sucesso, mas não de superioridade. Borboletas de asas vermelhas sobrevivem melhor em um bosque de árvores vermelhas do que borboletas de outras cores, já que seriam menos visíveis a seus predadores. No entanto, uma borboleta não é superior a uma barata, a um leão ou a um tubarão. Aliás, nenhum desses animais é superior aos demais, mas apenas mais adaptados a seus habitats. O pensamento dominante da época de Comte, Darwin e Kardec, isto é, do século 19, era racista e xenofóbico. Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail) deixou isso bem claro em seu texto “Frenologia espiritualista e espírita - Perfectibilidade da raça negra”. E que me corrijam os historiadores, mas tenho a impressão de que “nunca antes na história” da humanidade a ideologia do sobrenatural esteve mais em evidência do que durante o nazismo. Que me perdoem os crentes, mas fé demais não cheira bem. Para quem não sabe, essa é uma alusão a um filme de Richard Pearce (Leap of Faith, 1992) com Steve Martin no papel de um pastor charlatão.

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