Seu retrato, domingo que vem


O extraordinário crescimento econômico do Brasil entre 2003 e 2014 promoveu uma mobilidade ascendente “como nunca antes na história deste país”. Mas, em conformidade com o pensamento revisionista atualmente predominante, vejamos apenas as consequências negativas. Talvez tivesse sido melhor a mediocridade do período 1964-2002. Sim, porque os governos trabalhistas e desenvolvimentistas sempre criam a figura do novo-rico. O novo-rico não sabe, mas ele é aquela pessoa de origem simples, humilde, oriunda de classe social e economicamente baixa, que subitamente passou a ter mais dinheiro, mas continuou ignorante, vulgar, sem elegância, charme, discrição, nem refinamento. Geralmente é avarento, mesquinho, mas também é comum que ostente a riqueza. É partidário da meritocracia e da teologia da prosperidade. O novo-rico, agora na classe média ou alta, tem vergonha da própria origem, nega o passado, zomba do pobre e faz tudo para se diferenciar. Realiza todos os sonhos de consumo: roupa chique, carro bonito, casa na praia, casa no campo, tudo do bom e do melhor, desde que seja mais caro. Antes ia à Praia Grande e à Ciudad del Este; agora é só Miami e Orlando. Ainda sacoleiro, no entanto agora compra até casa lá fora. Para o vira-lata, tudo o que é estrangeiro, do hemisfério norte, saliente-se, é melhor. O novo-rico continua sem gostar de ler. Assina aquelas revistas semanais, carregadas de anúncios publicitários. Agora não é mais desinformado. É mal informado. Não abre um jornal; um livro, nem pensar. Não consegue interpretar um texto. Não se importa, a não ser com amenidades, fofocas. Acha celebridades mais importantes do que fatos e ideias. Uma vez que não lê, tem um vocabulário muito pobre, restrito. Como o pensamento precisa de palavras, mal sabe pensar, mal consegue escrever. Para comunicação, bastam os “kkk” e os “bjs” nas redes sociais. Mal sabe português, mas agora é caboclo querendo ser inglês. Como disse Cazuza, a burguesia fede. Mas, lembrando uma jornalista tucana, agora faz parte da massa cheirosa. Odeia o PT e, convocado pelas redes sociais, transformou-se em um soldado combatente ao comunismo ateu e ao Foro de São Paulo, um cristão em defesa da tradição, da família e da propriedade. O novo-rico adora citar o provérbio chinês, contra o assistencialismo, segundo o qual é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe. O novo-rico esqueceu, ou não sabe, que Jesus não apenas deu, mas multiplicou pão e peixe para saciar milhares. O novo-rico virou mula de memes, curte e compartilha a cantilena da mídia golpista, segundo a qual na corrupção só existem corruptos, nunca corruptores. O resultado é o combate heróico aos ladrões, desde que não sejam pastores, juízes, empresários, claro. O novo-rico esqueceu, ou não sabe, que Jesus foi perseguido, condenado sem provas, e cumpriu a pena de execução na cruz, ao lado de dois outros criminosos, prometendo a um dos ladrões que naquele mesmo dia estariam no Paraíso. O novo-rico, geralmente crente, como a nova direita, reescreve a história e a própria religião, desconhecendo e negando que “mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”. Certamente Mateus e Lucas deveriam estar drogados por comunistas quando escreveram tal sacrilégio. Afinal, o novo-rico, cristão, homem de bem, e de bens, vai à missa, ou melhor, ao culto, de manhã; e à tarde vai votar no candidato igualzinho a si mesmo: racista, homofóbico, machista, misógino, xenófobo, sonegador, defensor das armas, e cujo ídolo é aquele torturador covarde (Carlos Alberto Brilhante Ustra). Afinal, o hipócrita faz continência a bandeiras alienígenas, mas faz de conta que o Brasil está acima de tudo, e Deus, não o dinheiro, está acima de todos.

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