O golpe de estado brasileiro e a maré fascista


Em vista do surgimento das forças de direita e de extrema-direita tanto nas Américas quanto na Europa, nosso objetivo consiste em promover uma discussão sobre o golpe no Brasil. Após um período de estabilidade, ao lado do surgimento de uma série de manifestações populares, em 2013, o Brasil testemunhou o impeachment de Dilma Rousseff, que foi implicada por uma manobra parlamentar ilegal. O golpe brasileiro abriu a porta para uma série de reformas institucionais, aprofundando a distância entre os representados e os seus representantes, uma vez que promoveu um programa político que não foi certificado por nenhuma disputa eleitoral. A melhor realização deste processo ocorreu na forma de uma emenda à Constituição, que impediu qualquer aumento real das despesas públicas para os próximos 20 anos (Emenda Constitucional número 95, aprovada pelo Senado em dezembro de 2016). É desnecessário dizer que tal modificação radical nunca seria aprovada pela escolha popular.
No entanto, o contexto brasileiro não pode ser entendido sem referência ao crescimento contínuo da importância do discurso de direita (e da extrema direita) em meio à turbulência política. Desde manifestações maciças em 1984 que culminaram na restauração de instituições democráticas, a profundidade dos problemas sociais brasileiros prejudicou o poder da retórica da direita tanto no lado liberal como no lado conservador. A própria qualificação de "direita" foi considerada como um eficiente método de desqualificação na arena política. Por esta razão, intelectuais de direita insistiram repetidamente na necessidade de superar a dicotomia esquerda-direita no Brasil - quando eles simplesmente não rejeitaram qualquer afiliação a ideias de direita. Nos últimos anos, essa situação mudou. A direita não está mais envergonhada de indicar suas preferências ideológicas. Organizada através de think tanks, bem como ideólogos, e com o apoio dos principais jornais, eles desenvolveram uma frente ideológica sofisticada, que espalha idéias violentas contra minorias e o que rotulam de "modernidade cultural". Existe um claro esforço para neutralizar todas as ideias que podem ser consideradas como esquerdistas, ideias que são retratadas como patologias cognitivas e desvios morais. O moralismo tornou-se uma característica central do novo conservadorismo brasileiro, que, não obstante sua heterogeneidade intrínseca, revela traços gerais importantes.
No Brasil, a crítica contra a "modernidade cultural" vem ao lado da avaliação do capitalismo e da distribuição de riqueza baseada no mercado. Consequentemente, combina elementos das tendências de extrema-direita com a visão neoliberal da economia. Análises tais como as de Jürgen Habermas sobre o novo conservadorismo ou o "Ódio da Democracia", de Jacques Rancière, expressam a inscrição global da maré conservadora e evita qualquer interpretação isolada do contexto brasileiro. Por outro lado, é necessário levar em consideração as particularidades dos discursos de direita e extrema direita no Brasil, que, por exemplo, não dão muita importância a uma discussão sobre xenofobia.

P.S.: Essa é uma tradução livre do texto The brazilian Coup d'État and the right-wing tide da Fundação Roxa Luxemburgo.

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