quinta-feira, janeiro 28, 2016

A origem medieval do trote universitário

Trote no Primeiro Mundo
Em plena era da informação, em que se pode ter acesso a jornais, revistas e livros do mundo todo na palma da mão, pessoas e instituições ainda disseminam pedaços de informações falsas propositalmente (balões de ensaio, hoaxes) ou não (como mulas de memes, spammers).
Outro dia ouvi dizer que “o trote foi criado pela ditadura militar para dividir os estudantes”. Essa peça de informação era nova para mim.  Devo ter perdido essa aula, pensei.  Que eu saiba, foram presos, torturados e assassinados covardemente muitos estudantes, operários, pessoas do campo e da cidade que ousaram resistir à nossa ditadura militar. A divisão dos estudantes teria sido uma estratégia? Aí me lembrei das palavras de Groucho Marx: “inteligência militar é uma contradição de termos”, e invocando o princípio de Heisenberg, não dá para ser militar e inteligente ao mesmo tempo.  A ditadura não teria sido capaz disto, embora tenha recrutado torturadores entre os militares e os estudantes falangistas de direita que curtiam os trotes.
Passando dos quartéis para as universidades, é interessante observar que estas, e principalmente nas cátedras e cursos mais tradicionais, formaram a nossa elite conservadora e reacionária.  Curiosamente, professores e intelectuais, alguns até com apartamentos em Paris, pesquisaram até aborígenes em extinção nos confins da pátria, mas não escreveram nenhuma linha sobre a prática fascista do trote bem debaixo de seus olhos.  Lembro até hoje um diretor do Instituto de Química dando abertura a uma sessão de trote psicológico na USP.  Ao mesmo tempo reitores tradicionalistas acolhiam o proselitismo da Opus Dei dentro dos campi.
Voltando ao tema da origem do trote, uma simples pesquisa no Google, de acordo com diversas fontes, revela que o trote universitário tem origem medieval, em fins do século XIV, época da peste negra (daí a raspagem da cabeça).  Até mesmo aquele hebdomadário fascista do “antigo” boimate, da recente falsificação de documento para incriminar um senador, entre tantos outros crimes em nome da liberdade de imprensa e de expressão, admite: o trote é tão antigo quanto a própria universidade.

Em tempo: o hebdomadário mencionado foi recentemente lembrado com muito bom humor pelo historiador Leandro Karnal.

terça-feira, janeiro 26, 2016

A TV e a História

Hoje o Google nos lembra que a TV está fazendo 90 anos.  Como disse Groucho Marx, "I find television very educating. Every time somebody turns on the set, I go into the other room and read a book".  Em uma tradução livre seria algo mais ou menos assim: "Acho a TV muito educativa.  Sempre que alguém a liga, vou para outro cômodo e leio um livro".  É o que todo mundo devia fazer, para não ficar parecido com a pessoa da ilustração abaixo, que assiste a Globo usando a camisa da CBF.

Quem assistir bastante TV hoje deve ganhar assinaturas da Veja e do BBB 2016 ao vivo em tempo real 24 horas. SQN.
Agora é sério: que tal, neste aniversário da TV, desligar a televisão e abrir um livro? 
Acabei de ler "1968 o tempo das escolhas" da Catarina Meloni, Editora Nova Alexandria, 2009.  Para quem não sabe, a Catarina era da Ação Popular, do Betinho, do José Serra, do Aldo Arantes e de muitos outros do grupo que inaugurou a resistência armada com o episódio da bomba no aeroporto dos Guararapes (Recife, 1966). 
Muita gente não gosta de História.  Alguns gostam, mas daquela História de tempos e lugares exóticos, distantes.  Cá entre nós, conheço muita gente que cabulou as aulas de História. 

Ainda que não se dê conta, a História não é algo apenas do passado, ela não parou, ela continua, ela acontece agora, neste momento.  E para entender esse tempo, é necessário conhecer a História.  O tempo de hoje será objeto de estudo daqui a uma década, um século, um milênio.  Lembrando Burke, "aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la" e isto se aplica não apenas a pessoas, mas também a povos, nações, países.

sábado, janeiro 23, 2016

O bom, o mau, o feio e o colonialismo cultural

Já é um lugar-comum se ouvir pessoas mal informadas dizerem que todos os políticos são iguais e corruptos, ao se depararem com argumentos mostrando que a corrupção é invenção das elites.  Dos três grupos étnicos que compuseram a população brasileira, que são os índios (nativos), os negros (africanos escravizados) e os brancos (europeus), adivinha qual deles instaurou aqui a corrupção, qual deles é o corruptor. Conforme Gilberto Freyre, a sociedade brasileira foi formada pelos senhores brancos que se apoderaram da terra e pelos negros que passaram de escravos a servos e de servos a trabalhadores assalariados.  Os índios foram em sua maioria dizimados pelos senhores brancos e cristãos, naturalmente. Hoje a maior parte da classe média pensa exatamente o que é decidido pelos barões da mídia. Por isso o político sociólogo é o modelo do bem enquanto o político pau-de-arara que não fala inglês é motivo de asco, vergonha e indignação. Por não ter cultura histórica e ideológica, o mal informado não consegue diferenciar os políticos segundo os diferentes interesses que estes representam. O mais comum é que o mal informado compre, em todos os sentidos, tudo que é determinado pelas classes dominantes.


terça-feira, janeiro 19, 2016

Ettore Scola

Hoje o cinema perdeu aos 84 anos de idade um de seus maiores mestres: o italiano Ettore Scola.  Ele dirigiu filmes maravilhosos como
"Nós Que Nos Amávamos Tanto" (C'eravamo tanto amati, 1974),
"Feios, Sujos e Malvados" (Brutti, Sporchi e Cattivi, 1976), e especialmente os meus preferidos:
"Um Dia Muito Especial" (Una Giornata Particolare, 1977), com Sophia Loren e Marcelo Mastroianni no papel de dois vizinhos, uma dona de casa resignada e um jornalista perseguido, que se conhecem no dia em que Hitler visitou a Itália fascista em 1938; e
"O Baile" (Le Bal, 1983), que conta 50 anos da história da Europa em um salão de baile na França, sempre com as mesmas personagens sem um diálogo sequer.
Scola não ganhou nenhum Oscar, principalmente por ser italiano, mas também por ter feito um cinema de autor, de altíssima qualidade, muito acima da média do cinema ianque.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Millôr avisou: a imprensa brasileira sempre foi canalha

Tem gente que imagina estar bem informada ao assinar ou ler a revista Veja; ao assistir, ouvir ou ler qualquer veículo da Rede Globo. 

A Globo sempre mentiu em parceria com a ditadura militar e seus artífices. Em 1981, a Globo chegou a mostrar as granadas que estavam no carro dos militares que promoveram o atentado ao pavilhão Rio Centro, mas voltou atrás e despudoradamente afirmou que eram extintores de incêndio ou tubos de gás lacrimogêneo. De acordo com a CartaMaior, em 1984 "após 20 anos de ditadura, 300 mil brasileiros foram à Praça da Sé pedir eleições diretas e o Jornal Nacional disse que o ato era festa pelo aniversário de SP" - detalhe: sou testemunha ocular desse evento. E, como confessou o ex-número 2 da Globo, o Boni, o debate decisivo nas eleições de 1989 foi mesmo manipulado.  A Globo cometeu fraude fiscal não pagando impostos pela aquisição de direitos de transmissão da Copa de 2002, e não paga uma dívida que supera 600 milhões de reais.  E no ano passado ficamos sabendo que gente da família Marinho tinha conta no HSBC da Suíça, como resultado da abafada Operação Zelotes. 

A revista Veja, que pertence à família Civita e ao grupo Naspers, que apoiou o apartheid na África do Sul, sempre foi porta-voz de interesses escusos, como a "aliança com a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira", conforme o BrasilDeFato.  No ano passado, teve que pedir desculpas ao senador Romário por ter atribuído a ele uma conta na Suíça mediante um documento falsificado.  A lista de picaretagens dessa revista é muito longa.  Então vale a pena contar a história da maior barrigada do jornalismo brasileiro que ela protagonizou: 

Os jornais e revistas ingleses gostam de “descobrir" fatos científicos no dia 1º de abril. A maior revista brasileira “comeu barriga" e entrou na deles. Conheça a história do “boimate, uma nova fronteira científica". 
O “fruto da carne”, derivado da fusão da carne do boi e do tomate, batizado com o sugestivo nome de boimate, constituiu-se, sem dúvida, no mais sensacional ”fato científico” de 1.983, pelo menos para a revista Veja, em sua edição de 27 de abril. Na verdade, trata-se da maior "barriga" (notícia inverídica) da divulgação científica brasileira. 
Tudo começou com uma brincadeira – já tradicional – da revista inglesa New Science que, a propósito do dia 1º de abril, dia da mentira, inventou e fez circular esta matéria. 
A fusão de células vegetais e animais entusiasmou o responsável pela editoria de ciência da Veja que não titubeou em destacar o fato. E fez mais: ilustrou-o com um diagrama e entrevistou um biólogo da USP, para dar a devida repercussão da descoberta. 
Para a revista, “a experiência dos pesquisadores alemães, porém, permite sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica". 
O ridículo foi maior porque a revista inglesa deu inúmeras pistas: os biólogos Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s. A Universidade de Hamburgo, palco do "grande fato", foi citada para que pudesse ser cotejada com "hambúrguer" e assim por diante. Mas nada adiantou. 
A descoberta do engano foi feita pelo jornal Estadão que, após esperar inutilmente pelo desmentido, resolveu “botar a boca no mundo" no dia 26 de junho. 
O espírito gozador e, mais surpreendente às vezes até irado do brasileiro, no entanto, não deixou por menos. Durante o intervalo entre a matéria da Veja e o desmentido do Estadão, cartas e mais cartas chegaram às redações. 
Uma delas que, maliciosamente, assinou “X-Burguer, Phd, Capital", lembrava que no Brasil já haviam sido feitas descobertas semelhantes: o jeribá, cruzamento de jabá com jerimum, ou o goiabeijo, cruzamento de gens de goiaba, cana-de-açúcar e queijo, e adiantava que seus estudos prosseguiam para criação do Porcojão ou Feijoporco, cruzamento de porcos com feijões que ele esperava dar como contribuição à tradicional feijoada paulista. 
Domingos Archangelo escreveu ao Jornal da Tarde uma carta colérica contra a “a violação das leis naturais". Segundo ele, “do alto dos meus 76 anos, não posso ficar calado ante tal afronta às leis divinas. Boi nasceu para pastar, para puxar os saudosos carros do interior e para nos oferecer sua saborosa carne. E tomate, além das notórias qualidades que se lhe imputam na cozinha, serve também para ser arremessado à cabeça de quem perpetra tal monstruosidade e, também, dos dão guarida e incentivam tais descobertas". 
Francisco Luís Ribeiro, outro leitor da Capital, relata outros cruzamentos, além do boimate, que deram certo e cita experiências para “cruzar pombo-correio com papagaio, para o envio de mensagens faladas". 
Finalmente, com o objetivo de pôr fim ao caso que já divertia as redações, a revista publicou, na edição de 6 de julho, ou seja, depois de dois meses, o desmentido: “tratou-se de lastimável equívoco". E justificou-se, explicando que é costume da imprensa inglesa fazer isso no dia 1º de abril e que, desta vez, havia cabido à revista entrar no jogo, exatamente no “seu lado mais desconfortável". 

O texto acima é edição do site Humor na Ciência.

Em resumo: a gente não precisa abater o mensageiro, mas precisa saber se o mensageiro tem credibilidade.  Este não é o caso de Veja e Globo.  Mas, atenção, se você contar isto a um aficionado por este tipo de mídia e a pessoa ficar ofendida e zangada, lembre-se de Provérbios 29: não discuta e, se for preciso, peça desculpas alegando que (você) foi mal informado. O mundo não é perfeito. 

domingo, janeiro 10, 2016

A quem serve a classe média (ignorante, hipócrita, preconceituosa e) indignada?

“Ser ignorante sobre o que aconteceu antes de você nascer é viver a vida de uma criança para sempre” é uma sentença atribuída ao grande orador romano Cicero que, apesar de ultimamente espalhada pelos blogs de direita, ilustra bem o comportamento de parte da juventude atual.  Cícero também aconselhava: “Leia a cada espera; leia em todas as horas; leia durante o lazer; leia durante o trabalho; leia como quem vai; leia como quem volta. A tarefa da mente educada é colocada de forma simples: ler para liderar”.  Quem não lê acaba sendo liderado justamente por aqueles que desejam esconder o passado.  Um irlandês, Edmund Burke, disse que “aqueles que não conhecem a história estão condenados a repeti-la”.  O melhor exemplo disso é ver no meio daquela multidão de walking dead vestida com a camiseta da CBF tantos jovens reivindicando a volta da ditadura militar, manipulados pela mídia golpista.  Que falta fazem os livros, especialmente os livros de História!
Por falar em livros, recomendamos o texto do presidente do IPEA, Jessé Souza, autor de “A Tolice da Inteligência Brasileira”, destacado hoje pela Folha: “A quem serve a classe média indignada?”.