domingo, julho 05, 2015

A Onda Marrom e a Volta à Idade Média

Estou lendo “O Livro das Religiões” (Religionsboka, 1989), dos noruegueses Hellern, Notaker e Gaarder (que escreveu “O Mundo de Sofia”).  Ocorre-me que é possível que o medo do desconhecido, do inusitado, do diferente, do novo seja natural para o ser humano.  Talvez por isto tenham surgido as religiões.  Quem sabe se o animismo não foi uma forma primitiva de negar a morte ao atribuir espíritos, como entidades antropomórficas, aos animais, às plantas, aos rios, às montanhas, ao sol, à lua, às estrelas? No Oriente Médio esse politeísmo transformou-se em monoteísmo, base do judaísmo, do islamismo e do cristianismo.    Esta última religião criou o dogma misógino da Santíssima Trindade. Mais tarde, depois do Iluminismo, no século 19 o positivismo e o darwinismo foram a base do surgimento de ideologias “científicas” que apregoam o aperfeiçoamento “de tudo e de todos”.  Isto culminou em eugenia, racismo, imperialismo, sionismo, fascismo, nazismo. A contrapartida foi o surgimento dos movimentos libertários por direitos civis, pelo feminismo, pela paz e pelo meio ambiente.
Agora, em pleno século 21, era da comunicação e da informação, podemos constatar o renascimento do pensamento retrógrado que, como uma maré alta ou mesmo um maremoto, invade até mesmo os países mais progressistas, fenômeno conhecido na Europa por onda marrom. No Brasil esta onda marrom vem crescendo desde 2010.  A direita manipula corações e mentes em um esforço enorme, com muito dinheiro e recursos, já que detém o monopólio das comunicações, para voltar ao poder e interromper a agenda progressista iniciada no governo Lula.  Frustrada na maioria das eleições majoritárias, a direita partiu abertamente para o golpismo, após o sucesso nas eleições proporcionais, em que elegeu a maioria reacionária.  O atual Congresso, com sua agenda conservadora, trabalha pelo impeachment e pelo parlamentarismo. Não é à toa que lá estão Eduardo Cunha, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e a chamada bancada BBB, isto é, do boi, da bala e da bíblia.  Os ataques frequentes a indígenas, imigrantes (principalmente africanos e centro-americanos), nordestinos, sem terra, sem teto, homossexuais, políticos da situação e qualquer um que ouse defender o governo federal e a presidenta, ilustram de forma clara o crescimento da onda marrom entre nós.


Há pessoas que acham que a História é coisa do passado.  Não, a História acontece agora, hoje.  Amanhã, em um futuro não muito distante, os dias de hoje serão tema de estudo em aulas de História.  Assim como hoje estudamos a República de Weimar e o surgimento do nazismo, com os ataques a judeus, ucranianos, eslavos, sérvios, ciganos, lésbicas, gays, indivíduos bi- e transexuais, portadores de deficiências físicas e mentais, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová, maçons, negros, mestiços, sindicalistas, esquerdistas e dissidentes.  Recentemente, vimos o ataque verbal de um seguidor do Bolsonaro à presidenta em Stanford, os ataques racistas à Maju, a moça do tempo do JN, no Facebook, a agressão daquele “retardado online” ao frentista haitiano no Rio Grande do Sul, os ataques a Fernando Morais e a Jô Soares, a menina apedrejada por evangélicos na saída de um culto de Candomblé, o túmulo do Chico Xavier sendo vandalizado e tantas outras demonstrações de intolerância ideológica, filosófica, política e religiosa.  Qual a diferença? Será que “evoluímos”? Nada.  Apesar de todo o progresso, ainda presenciamos todas as facetas da direita: homofobia, misoginia, racismo, xenofobia, islamofobia, antissemitismo (lembrar que árabe também é semita), machismo, sexismo, autoritarismo, desprezo pela democracia, intolerância e ódio a quem pensa ou é diferente.

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