domingo, julho 19, 2015

Golpe Nosso de Cada Dia


Ler os jornalões no domingo não nos deixa esquecer: entra ano, sai ano, décadas se passam, e a mídia continua golpista aqui no Brasil. Basta comparar o comportamento da Folha, do Estadão e de O Globo.  Há 51 anos eles apoiaram o golpe fascista de 1964 e hoje apoiam o movimento golpista contra a presidenta democraticamente eleita.  As mesmas famílias que sempre tiveram o monopólio da comunicação o usam para manipular a opinião pública em prol de seus interesses.  Mesmo aqueles que não leem jornais por imaturidade, deficiência cognitiva ou alienação estão hipnotizados pela mídia na medida em que se “informam” por meio de fofoca, “achismo”, spam e não-notícias.  A grande mídia eventualmente tem um código de ética jornalística, mas é o tal do “me engana que eu gosto", já que não é isenta, plural, apartidária e independente como apregoa mentirosamente. Veríssimo sintetiza tudo isso ao dizer que “às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”.

Ao coxinha que imagina que a gente exagera quando chamamos esta mídia de PiG, partido da imprensa golpista, sugiro ler qualquer dia as seções de opinião dos jornalões.  Hoje mesmo se você ler com atenção e senso crítico as seções de editorial e tendências e debates da Folha, vai perceber como esse jornalão dá uma no cravo e outra na ferradura, morde e assopra, mas não esconde seus reais interesses, como fez quando deu apoio logístico à ditadura militar que chamou carinhosamente de “ditabranda” e sua dirigente confessou que era a mídia que fazia oposição no país.

Hoje o Estadão, em editorial, defende a farra dos institutos de pesquisas eleitorais, em nome da liberdade de expressão e de informação.  Também chama de “cinturão vermelho” os redutos petistas da periferia paulistana.  As colunas da Dora Kramer e da tucana Eliane Cantanhede, entre outras, ilustram bem o conservadorismo do Estadão, o que não é nenhuma novidade.  Aliás, novidade mesmo foi a matéria da revista Piauí sobre a rádio Jovem Pan: a nova sinfonia paulistana. A Jovem Pan virou porta-voz da extrema-direita ao dar voz apenas aos conservadores.

O destaque de O Globo hoje é que “documentos mostram que Lula fez lobby no exterior”.  É sério.  A mesma Globo que defende as empreiteiras estrangeiras para a exploração das nossas riquezas, diretamente em editoriais e também através de Ricardo Noblat, Merval Pereira, Miriam Leitão e outros da mesma linha editorial.

Outro dia um coxinha me perguntou: “então, você não lê nenhum dos jornalões?”.  Respondi que, ao contrário, procuro ler todos.  Sim, isso me dá condições objetivas de critica-los.  É preciso conhecer os que controlam as comunicações para saber o que eles pensam e tramam.  E ficar atento.

domingo, julho 05, 2015

A Onda Marrom e a Volta à Idade Média

Estou lendo “O Livro das Religiões” (Religionsboka, 1989), dos noruegueses Hellern, Notaker e Gaarder (que escreveu “O Mundo de Sofia”).  Ocorre-me que é possível que o medo do desconhecido, do inusitado, do diferente, do novo seja natural para o ser humano.  Talvez por isto tenham surgido as religiões.  Quem sabe se o animismo não foi uma forma primitiva de negar a morte ao atribuir espíritos, como entidades antropomórficas, aos animais, às plantas, aos rios, às montanhas, ao sol, à lua, às estrelas? No Oriente Médio esse politeísmo transformou-se em monoteísmo, base do judaísmo, do islamismo e do cristianismo.    Esta última religião criou o dogma misógino da Santíssima Trindade. Mais tarde, depois do Iluminismo, no século 19 o positivismo e o darwinismo foram a base do surgimento de ideologias “científicas” que apregoam o aperfeiçoamento “de tudo e de todos”.  Isto culminou em eugenia, racismo, imperialismo, sionismo, fascismo, nazismo. A contrapartida foi o surgimento dos movimentos libertários por direitos civis, pelo feminismo, pela paz e pelo meio ambiente.
Agora, em pleno século 21, era da comunicação e da informação, podemos constatar o renascimento do pensamento retrógrado que, como uma maré alta ou mesmo um maremoto, invade até mesmo os países mais progressistas, fenômeno conhecido na Europa por onda marrom. No Brasil esta onda marrom vem crescendo desde 2010.  A direita manipula corações e mentes em um esforço enorme, com muito dinheiro e recursos, já que detém o monopólio das comunicações, para voltar ao poder e interromper a agenda progressista iniciada no governo Lula.  Frustrada na maioria das eleições majoritárias, a direita partiu abertamente para o golpismo, após o sucesso nas eleições proporcionais, em que elegeu a maioria reacionária.  O atual Congresso, com sua agenda conservadora, trabalha pelo impeachment e pelo parlamentarismo. Não é à toa que lá estão Eduardo Cunha, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e a chamada bancada BBB, isto é, do boi, da bala e da bíblia.  Os ataques frequentes a indígenas, imigrantes (principalmente africanos e centro-americanos), nordestinos, sem terra, sem teto, homossexuais, políticos da situação e qualquer um que ouse defender o governo federal e a presidenta, ilustram de forma clara o crescimento da onda marrom entre nós.


Há pessoas que acham que a História é coisa do passado.  Não, a História acontece agora, hoje.  Amanhã, em um futuro não muito distante, os dias de hoje serão tema de estudo em aulas de História.  Assim como hoje estudamos a República de Weimar e o surgimento do nazismo, com os ataques a judeus, ucranianos, eslavos, sérvios, ciganos, lésbicas, gays, indivíduos bi- e transexuais, portadores de deficiências físicas e mentais, prisioneiros de guerra, testemunhas de Jeová, maçons, negros, mestiços, sindicalistas, esquerdistas e dissidentes.  Recentemente, vimos o ataque verbal de um seguidor do Bolsonaro à presidenta em Stanford, os ataques racistas à Maju, a moça do tempo do JN, no Facebook, a agressão daquele “retardado online” ao frentista haitiano no Rio Grande do Sul, os ataques a Fernando Morais e a Jô Soares, a menina apedrejada por evangélicos na saída de um culto de Candomblé, o túmulo do Chico Xavier sendo vandalizado e tantas outras demonstrações de intolerância ideológica, filosófica, política e religiosa.  Qual a diferença? Será que “evoluímos”? Nada.  Apesar de todo o progresso, ainda presenciamos todas as facetas da direita: homofobia, misoginia, racismo, xenofobia, islamofobia, antissemitismo (lembrar que árabe também é semita), machismo, sexismo, autoritarismo, desprezo pela democracia, intolerância e ódio a quem pensa ou é diferente.