domingo, abril 26, 2015

A Canção da Estrada

“A Canção da Estrada” (Pather Panchali, 1955) é o primeiro filme do indiano Satyajit Ray, e também o primeiro da Trilogia de Apu, baseada num clássico da literatura bengali.  Conta a estória de um menino nascido em uma pequena e pobre aldeia. Apu vive com a irmã Durga, a mãe Sarbojava, a avó, um cachorro, uma cabra e uns gatos, enquanto seu pai Harihar, poeta e escritor brâmane, tenta arranjar um trabalho, mas acaba vendendo o sítio para pagar as dívidas.  O que impressiona logo de cara é a pobreza do local e o jeito lento e simples de Ray contar a estória.  Akira Kurosawa disse uma vez que “não ter visto o cinema de Ray significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua”.
Muita gente não sabe, mas a Índia tem sido o país que mais filmes produz, à frente da China, do Japão, dos Estados Unidos.  Um de seus muitos polos de cinema chama-se Bollywood. Falando nisto, o cinema da Nigéria, conhecido por Nollywood, também está ultrapassando Hollywood.  Por que será que a maioria de nós não sabia disso?
Veja um pedaço deste filme no YouTube.

Para entender o Pato Donald e os dias atuais

“Para leer al Pato Donald” foi escrito pelo argentino Ariel Dorfman e pelo belga Armand Mattelart, e publicado no Chile dois anos antes do golpe fascista que derrubou o presidente Salvador Allende em 11 de setembro de 1973. O Pato Donald (Donald Fauntleroy Duck) foi criado pela Disney em 1934.  Virou revista em quadrinhos no Brasil em 12 de julho de 1950, publicada pela Editora Abril, fundada naquele ano pelo americano Victor Civita, em sociedade com brasileiros, a exemplo do irmão Cesare, que já era editor na Argentina. Abril se refere ao início da primavera (nome inicial da editora) no hemisfério norte.  Alguns anos antes, em plena II Guerra Mundial, os americanos estavam preocupados com a influência das Potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) sobre a América Latina, principalmente Brasil, Argentina, Chile e Peru. No âmbito da Política da Boa Vizinhança, na comitiva de Rockefeller, Disney e RKO produziram “Saludos Amigos” com première mundial no Rio em 24 de agosto de 1942, dois dias após a adesão de Getúlio Vargas à Declaração das Nações Unidas (origem da ONU, dos Aliados). O livro de Dorfman e Mattelart ilustra bem a relação da comunicação de massas e o colonialismo cultural.
Além das cartilhas “Caminho Suave” (Branca Alves de Lima) e “História de Paulo e Lalá” (Guiomar Roque de Siqueira), foi com “Mickey, revista mensal de Walt Disney” que aprendi a ler, graças à professora dona Ametista.  Ela tranquilizou meus pais, que acreditavam que gibis eram obras underground, impróprias para crianças. Apesar de ter parado de comprar e ler conservo até hoje minha coleção de Mickey.  Conhecer o “Para Ler o Pato Donald” foi uma experiência semelhante àquela que tive ao descobrir brinquedos escondidos em casa, que meus pais tinham comprado para o próximo Natal, quando entendi que Papai Noel não existia. E também quando, nos anos 70, entendi que vivíamos sob uma ditadura fascista apoiada pela mídia, especialmente aquele jornal que se diz a serviço do Brasil e aquela TV que faz aniversário hoje.
A lição aprendida é que devemos ter muito cuidado com a mídia e o que ela propaga, sob risco de acabar odiando os oprimidos e amando os opressores, como disse Malcolm X.  Mesmo não sendo católico, concordo integralmente com o que disse o papa Francisco:

“Depois, são tantas as virtudes. Acenei para isto no início: seguir a estrada da bondade, da verdade e da beleza, e tantas virtudes neste caminho. Mas existem também os pecados da mídia! Permito-me falar um pouco sobre isto. Para mim, os pecados da mídia, os maiores, são aqueles que seguem pelo caminho da mentira e são três: a desinformação, a calúnia e a difamação. Estes dois últimos são graves, mas não tão perigosos como o primeiro. Por quê? Vos explico. A calúnia é pecado mortal, mas se pode esclarecer e chegar a conhecer que aquela é uma calúnia. A difamação é um pecado mortal, mas se pode chegar a dizer: ‘esta é uma injustiça, porque esta pessoa fez aquela coisa naquele tempo, depois se arrependeu, mudou de vida’. Mas a desinformação é dizer a metade das coisas, aquilo que para mim é mais conveniente e não dizer a outra metade. E assim, aquilo que vejo na TV ou aquilo que escuto na rádio não posso fazer um juízo perfeito, pois não tenho os elementos e não nos dão estes elementos. Destes três pecados, por favor, fujam! Desinformação, calúnia e difamação.”

sexta-feira, abril 24, 2015

Adoniran Barbosa e Elis Regina 1978 (completo)

Iracema, eu nunca mais que te vi
Iracema meu grande amor foi embora
Chorei, eu chorei de dor porque
Iracema, meu grande amor foi você
Iracema, eu sempre dizia
Cuidado ao travessar essas ruas
Eu falava, mas você não me escutava não
Iracema você travessou contra mão
 E hoje ela vive lá no céu
E ela vive bem juntinho de nosso Senhor
De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos
Iracema, eu perdi o seu retrato
Iracema, fartavam vinte dias pra o nosso casamento
Que nóis ia se casar
Você atravessou a São João
Veio um carro, te pega e te pincha no chão
Você foi para Assistência, Iracema
O chofer não teve curpa, Iracema
Paciência, Iracema, paciência
E hoje ela vive lá no céu
E ela vive bem juntinho de nosso Senhor
De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos
Iracema, eu perdi o seu retrato

 

segunda-feira, abril 20, 2015

A Onda Conservadora

Segundo o médico e professor Daniel Siegel, da UCLA, a remodelação do cérebro é a causa do comportamento impulsivo e rebelde da juventude, e mudanças são necessárias para que se continue jovem e saudável.  Imagino que o amadurecimento seja também uma mudança necessária, e muito.  Todo mundo deve conhecer alguém que se mantém criança a vida toda, no bom e no mau sentido.  E não é difícil encontrar jovens “envelhecidos”, que agem “como nossos pais”.
Em 2008 o alemão Dennis Gansel dirigiu o filme “A Onda” (die Welle), com roteiro de Johnny Dawkins, roteirista também de outro filme com o mesmo nome (The Wave, Alex Grasshof, 1981).  Em 2011, David Jeffery dirigiu o documentário Lesson Plan sobre o mesmo tema. Todos se baseiam na obra de Ron Jones, sobre uma história real.
O professor colegial Rainer Wenger (Jürgen Vogel) faz um experimento para demonstrar como é a vida sob uma autocracia, definida por um de seus alunos como a forma de governo em que um indivíduo ou um grupo concentra poder suficiente para dominar o Legislativo. Vale a pena refletir um pouco sobre suas causas, princípios, características e símbolos:
  • Descontentamento frente a problemas sociais verdadeiros ou destacados pela mídia, como injustiça, corrupção, desemprego, inflação.
  • Indiferença à política, despolitização, analfabetismo político. Depois do rock ‘n’ roll alienado no começo do filme, vemos o seguinte diálogo entre jovens de classe média: “Contra o que se deve revoltar hoje em dia? Hoje nada tem mais importância, certo? Todos já têm com o que se distrair, divertir. O que falta à nossa geração é um objetivo comum, que nos una a todos. Este é o espírito da época. Olhe em volta de você. A pessoa mais procurada no Google é quem? A p... da Paris Hilton”.
  • Ideologia, seja filosófica, religiosa ou política, levada ao extremo.
  • Espírito de comunidade, união, grupo, seita, nacionalismo extremado.
  • Hierarquia, supervisão, liderança.
  • Respeito, culto, disciplina.
  • Ação, reação, participação, movimento, marcha.
  • Uniformização, estilo, grife e marca de roupas, acessórios, utensílios, equipamentos.
  • Identificação, autodenominação, bandeira, brasão, insígnia, selo, hino, grito de guerra, postura, gesticulação, saudação, senha, tatuagem, adesivo, graffiti, perfil em redes sociais, site, homepage.
Hoje há uma discussão sobre se estamos vivendo sob uma onda conservadora ou não.  Se considerarmos o avanço da porcentagem de votos nulos, em branco e abstenções, então não podemos concluir que existe necessariamente uma onda conservadora, mas um descrédito crescente na Política como forma de aprimoramento da sociedade e, portanto, um envolvimento cada vez menor, especialmente dos jovens.  Por outro lado, vemos “estarrecidamente” o crescimento da presença da direita, tanto nas eleições proporcionais como nas majoritárias.  É o caso das bancadas conservadoras no Legislativo.  E da eleição de reacionários, principalmente nos estados de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.  São Paulo deu mais votos ao candidato playboy, elegeu o vampiro da bolinha de papel, reelegeu no primeiro turno o servo da Opus Dei, elegeu deputado estadual certo coronel evangélico e deputado federal certo pastor evangélico.  E o Rio de Janeiro elegeu deputado federal um reservista adepto da violência, da tortura, do machismo, do racismo, da homofobia. É preciso dar nome aos bois?
É muito perigoso quando se tenta fazer política com filosofia e com religião, sem partidos políticos como sugeriram as manifestações de vandalismo em 2013, ou como a reedição da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” promovida pela classe média branca que elegeu o Congresso mais conservador da história do país e que não conseguiu eleger o candidato da mídia.   Essa mídia, cujos capi sonegam e lavam dinheiro em paraísos fiscais, teme a suspensão da verba publicitária estatal.  Por isso manipula e promove o golpismo.  Para ela, lembrando o que disse uma vez Lyndon Johnson, presidente americano que nos anos 60 enviava jovens para morrer no Vietnã e negava direito de voto aos negros, se numa manhã a Dilma andasse sobre as águas então manchetes à tarde e à noite seriam: “a presidente não sabe nadar”.  Claro que manchetes assim no dia seguinte serviriam apenas para se forrar gaiolas, como fazemos com certos jornais que mentem ao afirmar que são isentos, independentes, plurais e apartidários, mesmo tendo apoiado logisticamente a ditadura militar fascista que os milicos chamam de “revolução de 31 de março 1964”, acontecida em primeiro de abril, dia da mentira, daquele ano.
Veja, com o perdão da palavra, a versão de “A Onda” em espanhol no YouTube.

Mídia golpista hoje

Domingo é dia de folhear os jornalões e tentar entender o que a máfia dos barões da mídia está querendo que a gente acredite. O Globo, en...