quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Senso comum e senso crítico

Há alguns anos, hoje muitos para falar a verdade, o Instituto de Química da USP tinha a tradição de realizar um “colóquio de aferição de nível”.  O evento era organizado pelos veteranos e o público alvo era os calouros.  Sim, era uma espécie de trote.  Não o trote de sofrimentos físicos impingidos aos novatos, mas um trote psicológico que, mesmo sob controvérsias, tinha a finalidade de verificar se o senso dos calouros era comum ou crítico.  Falsos professores pós-doutorados, que na verdade eram veteranos desconhecidos, apresentavam teses que jogavam por terra tudo aquilo que a gente tinha aprendido no colegial e nos cursinhos preparatórios para o vestibular.  E o clima era pesado, arbitrário, autoritário, um mise en scène baseado na ditadura militar.  Muitos alunos comentavam que a experiência tinha sido estressante e trazia emoções como medo, raiva e tristeza, mas teria sido ao final uma lição de vida.  Não me incluí nesse rol porque fiquei tão preocupado que faltei na semana toda para estudar e, focado na preparação para o colóquio, acabei esquecendo de verificar a data exata do evento.  Lamentei muito quando soube que perdi tal experiência.  No ano seguinte, para descontar, fiz questão de impressionar os calouros circulando com um livro enorme debaixo do braço e avisando a todos para não faltarem ao colóquio que seria dia d e hora h. Também aproveitei as lições do colóquio, embora de uma forma diferente, sem estar acuado naquela atmosfera sombria e, por isso, sem saber que emoções experimentaria de forma mais intensa.
De qualquer forma, a grande lição daquele dia foi o despertar para o senso crítico, deixando para trás o senso comum da grande maioria alienada.  Ali a gente aprendeu a ouvir e questionar sobre a validade não apenas da informação, mas principalmente a validade da fonte daquela informação.  Boa parte de nós, naquela época, passou pela universidade não aprendendo apenas sobre a matéria ou área de conhecimento específica (no caso, química), estudando muito, tirando boas notas e nos tornando profissionais com amplo embasamento teórico.  Sorte que não foi apenas isso.  Tivemos acesso a uma visão diferente sobre o que estava acontecendo no país e no mundo.  E aprendemos a refletir sobre aquilo que a mídia (jornal, revista, rádio, TV, cinema) escolhia para nos apresentar, sobre a forma escolhida para apresentação, e sobre quem possuía essa mídia e quais seriam suas motivações.  Ou seja, se um jornal estampava determinada manchete, as perguntas eram: por que aquele tema foi escolhido, por que foi apresentado daquela forma, quem era o dono do jornal, quem ele tinha sido antes e quais seriam seus interesses.
Conheço muita gente que se acha bem informada por ler determinada revista e determinado jornal.  Não conto aqueles que lêem apenas a parte de esportes ou a de entretenimento.  Mas a questão é: será que essa gente está bem informada mesmo? Alguém pode ter escolhido não só o que as pessoas devem saber, mas de que forma devem saber, não? Ou será que existe mídia isenta, imparcial, pluralista, apartidária e independente?  Se for assim, Papai Noel, Mula Sem Cabeça e almoço de graça também existem.
Bem, o assunto é longo e há diversos aspectos a serem considerados.  Tema para futuras reflexões.

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