Alienado Nosso de Cada Dia

Quando entrei na universidade, descobri que o Brasil não era aquela maravilha que o governo apregoava e que quase todo mundo daqui acreditava. Descobri que a universidade não era apenas um lugar pra gente aprender alguma ciência e ganhar um diploma. A entrada na universidade foi o despertar para a verdadeira realidade daqueles anos de chumbo. Mas naquele tempo poucos chegavam à universidade. E não havia os recursos de comunicação disponíveis hoje em dia. Celular, só na série “Jornada nas Estrelas”. Internet, ninguém sonhava. Previam-se computadores poderosos, mas colocá-los em rede só foi possível graças ao belicistas que, depois da Guerra Fria, temiam o apocalipse atômico.
Hoje, passados tantos anos, muitas vezes ainda fico perplexo ao me deparar com o grau de alienação de muitas pessoas, especialmente dos jovens em plena era da informação. Quase não acredito que uma imensa quantidade de jovens utilize os mais avançados recursos da tecnologia da informação para amenidades impostas pela cultura do consumo. Eles não conseguem pensar e agir por si próprios. A agenda deles é determinada pela mídia. Eles nem sonham que os donos da mídia é que escolhem o que eles devem saber, pensar e fazer. Aliás, se o marketing e o consumo nos fazem felizes, para que pensar?
Para se encontrar alguém que não seja alienado hoje em dia, temos que fazer como o cínico Diógenes, que saiu com uma vela acesa em pleno dia, procurando uma pessoa honesta. Basta ouvir alguns minutos as conversas no metrô, no corredor, no elevador, no bar, no clube...Fulano comenta o programa imperdível da melhor emissora, a Globo. Sicrano se acha bem informado porque lê o caderno de esportes e o de entretenimento da Folha. Beltrano é chique, corporativo, porque compra as propagandas da Veja. A mídia escolhe até o candidato das pessoas, e também como elas devem votar nos plebiscitos. Tem jornal e revista aí que até se orgulha por derrubar presidente. É. Promove até passeata de estudante filhinho-de-papai. Escoltada pela polícia, claro. Não pode ser como nos tempos do Erasmo Dias, né? Ah, e tem os cansados também, lembra? Gente chique é outra coisa.
Mas, olha, se você tentar ficar bem informado, então você será considerado político. E isso é muito feio. Afinal, só os políticos são desonestos, principalmente aqueles dos quais o dono do jornal não gosta. Não existe corrupção na iniciativa privada. Nem assédio moral. E os novos-ricos vão ao paraíso porque são vestais – menos na época de fazer a declaração do imposto de renda, que ninguém é de ferro. E também não vale flagrá-los dirigindo no trânsito das grandes cidades, porque o importante é levar vantagem, certo?

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