quarta-feira, março 24, 2010

Alienado Nosso de Cada Dia

Quando entrei na universidade, descobri que o Brasil não era aquela maravilha que o governo apregoava e que quase todo mundo daqui acreditava. Descobri que a universidade não era apenas um lugar pra gente aprender alguma ciência e ganhar um diploma. A entrada na universidade foi o despertar para a verdadeira realidade daqueles anos de chumbo. Mas naquele tempo poucos chegavam à universidade. E não havia os recursos de comunicação disponíveis hoje em dia. Celular, só na série “Jornada nas Estrelas”. Internet, ninguém sonhava. Previam-se computadores poderosos, mas colocá-los em rede só foi possível graças ao belicistas que, depois da Guerra Fria, temiam o apocalipse atômico.
Hoje, passados tantos anos, muitas vezes ainda fico perplexo ao me deparar com o grau de alienação de muitas pessoas, especialmente dos jovens em plena era da informação. Quase não acredito que uma imensa quantidade de jovens utilize os mais avançados recursos da tecnologia da informação para amenidades impostas pela cultura do consumo. Eles não conseguem pensar e agir por si próprios. A agenda deles é determinada pela mídia. Eles nem sonham que os donos da mídia é que escolhem o que eles devem saber, pensar e fazer. Aliás, se o marketing e o consumo nos fazem felizes, para que pensar?
Para se encontrar alguém que não seja alienado hoje em dia, temos que fazer como o cínico Diógenes, que saiu com uma vela acesa em pleno dia, procurando uma pessoa honesta. Basta ouvir alguns minutos as conversas no metrô, no corredor, no elevador, no bar, no clube...Fulano comenta o programa imperdível da melhor emissora, a Globo. Sicrano se acha bem informado porque lê o caderno de esportes e o de entretenimento da Folha. Beltrano é chique, corporativo, porque compra as propagandas da Veja. A mídia escolhe até o candidato das pessoas, e também como elas devem votar nos plebiscitos. Tem jornal e revista aí que até se orgulha por derrubar presidente. É. Promove até passeata de estudante filhinho-de-papai. Escoltada pela polícia, claro. Não pode ser como nos tempos do Erasmo Dias, né? Ah, e tem os cansados também, lembra? Gente chique é outra coisa.
Mas, olha, se você tentar ficar bem informado, então você será considerado político. E isso é muito feio. Afinal, só os políticos são desonestos, principalmente aqueles dos quais o dono do jornal não gosta. Não existe corrupção na iniciativa privada. Nem assédio moral. E os novos-ricos vão ao paraíso porque são vestais – menos na época de fazer a declaração do imposto de renda, que ninguém é de ferro. E também não vale flagrá-los dirigindo no trânsito das grandes cidades, porque o importante é levar vantagem, certo?

sexta-feira, março 12, 2010

Até logo, Glauco

Quase não acreditei quando soube da morte do cartunista Glauco. As tirinhas dele na Folha eram uma das poucas coisas boas que restavam nesse jornal convertido em porta-voz da oposição conservadora. Assim como o Geraldão, a Dona Marta e outras tantas criações dele, ficamos todos órfãos, nós que éramos seus admiradores.
Minha homenagem ao Glauco é a lembrança da obra de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, na voz do Milton Nascimento:
Quem souber dizer a exata explicação, me diz como pode acontecer
Um simples canalha mata um rei em menos de um segundo
Oh! Minha estrela amiga, porque você não fez a bala parar?

quarta-feira, março 10, 2010

Horário das Partidas de Futebol

Os vereadores de São Paulo aprovaram uma lei que limita o horário de término das partidas de futebol na cidade às 23h15, o que significa que os jogos não podem começar depois das 21h30. Se o prefeito não vetar essa lei, esta será um boa notícia para o torcedor que pretende ir aos estádios ou mesmo ver as partidas em casa. Sabemos que nem todos os programas que começam tarde da noite são bons, mas provavelmente os melhores programas começam muito tarde, o que dificulta sua apreciação pelas pessoas que têm que levantar cedo para ir ao trabalho. A antecipação do horário dos jogos não é boa apenas para o torcedor que mora longe e enfrenta a falta de transporte coletivo após as partidas, mas também para os moradores das cercanias dos estádios, que ficam reféns de barulho, depredações e violências quando há jogos na cidade.
O tema tornou-se polêmico porque alguns acham que a TV deve continuar mandando e desmandando no futebol, com a anuência das federações e do Clube dos 13, que ganham muito dinheiro com isso e não dão a mínima aos interesses dos torcedores, da população e inclusive dos atletas. Argumenta-se até que sem a TV os clubes iriam à falência.
Nos bastidores da nossa querida mídia golpista o que está ocorrendo na cidade é uma disputa entre a Rádio Jovem Pan - AM, que defende o horário mais cedo, e a TV Globo, que tem mudado todos os horários dos eventos que ocorrem na cidade em função de sua programação. Os exemplos são muitos, entre eles a Corrida Internacional de São Silvestre e o Carnaval, além das partidas de futebol, que só podem começar após a novela das oito que agora começa às nove...
Também sou a favor da antecipação dos horários dos jogos e até acho que eles deveriam terminar no máximo às 22h. A TV, se quiser, é que deve se ajustar ao calendário do futebol, e nunca o contrário. Aliás, as emissoras que não apresentam novelas poderiam perfeitamente transmitir os jogos. Arriscaria dizer que assim, mesmo sem a TV, os torcedores voltarão aos estádios. É bom lembrar que muito antes do advento da TV, a torcida já freqüentava e lotava os estádios.
Nesta questão concordo inteiramente com a Rádio Jovem Pan, e inclusive com sua crítica ao baixo nível das novelas e dos reality shows, principalmente os da TV Globo. Só lamento que ela empreste o microfone a "meninos-prodígio" da direita como José Nêumanne Pinto e Ives Gandra Martins.