O Quarto Poder

Recebi de um amigo um spam que brinca com as diferentes versões da imprensa brasileira para uma mesma história, no caso, a estória do Chapeuzinho Vermelho. A mensagem não é novidade, mas nos leva a refletir sobre a qualidade e a ideologia de nossa mídia.
Assinei a Folha por muito tempo, quase sempre em papel e ultimamente na versão on-line, mas acabei cancelando. Não imaginava um dia admitir que o Estado estivesse melhor. Na verdade, não melhor, mas menos ruim. A propósito o Estado on-line continua com aquele banner que diz "xx dias sob censura", o que confunde o leitor porque relaciona uma decisão judicial contra divulgação de grampos a uma determinação autoritária da ditadura militar nos tempos em que o Estado publicava poemas e receitas por causa da censura prévia. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Aliás, o Estado, por meio do Jornal da Tarde, fez campanha contra alguns políticos (por exemplo: Brizola e Maluf) que seria mais adequada a um panfleto de sindicato em porta de fábrica. Não defendo tais políticos, mas acho que um jornal minimamente sério não deveria usar técnicas de pasquim. Nos anos de chumbo o Estado foi vítima, sim, da ditadura. E infelizmente outro jornal, dizem, emprestava viaturas para transporte de presos políticos.
Não sei muito a respeito do Jornal do Brasil e do Globo, mas este último, junto com toda a organização Globo, tem uma história muito suja. Não vou me demorar neste caso, mas recomendo ver o documentário da BBC "Muito Além do Cidadão Kane", por exemplo, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=JA9bPyd1RKQ).
A revista Veja é talvez o melhor exemplo de imprensa marrom (yellow journalism) que temos e também não vou me estender. Recomendo o artigo do Nassif "O Caso de Veja" (http://luis.nassif.googlepages.com/). Uma vez fui criticado por um colega quando disse que a Caras é melhor que a Veja. Disse e explico: a Caras é honesta e coerente com aquilo que se propõe. Não a leio, ou vejo, exceto quando vou ao barbeiro. Jamais a assinaria. Mas acho que ela é mais séria, só isso.
Independentemente de ser contra ou a favor de uma determinada ideologia política, filosófica ou religiosa, a imprensa deveria separar informação de opinião. Claro que deve haver liberdade de imprensa, mas é preciso responsabilidade e transparência. E não é apenas aqui que há problemas. Veja o caso do jornal dinamarquês Jyllands-Posten que em 2005 publicou charges contra Maomé ofensivas ao islamismo. Aquilo foi tão grosseiro quanto o que faz quase todos os dias o nosso "PiG" - partido da mídia golpista (Estado, Folha, Globo, Veja, Band). E isso não acontece só agora, não. Foi assim antes da quartelada de 1964, depois, no governo do Sarney, no do Collor, no do Fernando Henrique, e ainda mais agora, ou seja, sempre que o interesse dos donos dessa mídia foi ameaçado.
Como disse no início, cancelei, não sem tristeza, a minha assinatura da Folha. Acho que a alternativa é a blogosfera. Claro, da mesma forma, sei que devo filtrar o conteúdo porque há muita coisa boa e muita coisa abaixo da crítica. Há muitas opções dentro do espectro ideológico, e fica mais fácil discernir. Não vejo nenhum problema se determinada mídia ou pessoa é fascista ou comunista, se é conservadora ou progressista, se é católica ou muçulmana etc, desde que exprima sua opinião no foro adequado e de forma responsável.
Costa-Gavras abordou a questão da manipulação da opinião pública feita pela imprensa enquanto quarto poder no filme “O Quarto Poder” (Mad City, 1997). A propósito, para quem não lembra ou não conhece, Gavras é o mestre do suspense político que dirigiu, entre outros, “Z” (Z, 1969), “A Confissão” (L’Aveu, 1970), “Desaparecido – Um Grande Mistério” (Missing, 1982), “Estado de Sítio” (État de Siège, 1972) e “Seção Especial” (Section Spéciale, 1975), todos imperdíveis. Mas, voltando ao tema do poder da mídia, o quarto poder deixa de ser um grande aliado do cidadão comum e, aliado a gigantescos grupos econômicos, se torna mesmo um perigo para a democracia. Um exemplo clássico foi a campanha difamatória do jornal El Mercúrio contra o governo Allende, entre 1970 e 1973, que culminou no golpe. Se você é leitor da Veja, provavelmente acha que o Chavez é apenas um fanfarrão, mas o que você não deve saber é como atua a mídia conservadora na Venezuela, em nome da “liberdade de expressão”.
Embora seja virtualmente impossível manter sempre a neutralidade e o equilíbrio, uma boa opção pode ser verificar o ponto de vista dos media watchers, como o nosso Observatório da Imprensa, por exemplo. Se o camarada lê o Estado e a Veja e acha que está bem informado, uma “segunda opinião” pode ser interessante. Quando cheguei à universidade, minha primeira lição foi ouvir os contrários e conhecer as diferentes fontes de informação e de opinião. Acho que posso recomendar isto.

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