sábado, julho 30, 2005

Dias difíceis


Parte I - A tragédia


O teto branco parecia passar rapidamente. Uma luminária após a outra, em linha, brancas também. Era um corredor. Vira-se à direita. Outro corredor. Logo depois, à esquerda, outro. As portas duplas se abriam, tocadas pela maca. E deviam se fechar assim que a maca passava. Não conseguia ver. Nem via quem guiava a maca, onde eu estava deitado. Só sei que estava indo para o centro cirúrgico. Litotripsia (renal ou ureteral) intracorpórea, também conhecido por Lico. Era o que eu ia fazer. Ou melhor, era o procedimento médico pelo qual eu estava preste a passar. A sala era azulejada, em verde claro. Mudaram-me rapidamente da maca para a mesa de operação. Eu já estava com aquela roupa de hospital (uma espécie de avental, ou bata), toca e meias brancas. No teto, havia umas luminárias grandes, redondas, espelhadas, onde eu tentava ver nem que fosse um pedaço de minha imagem refletida. Não consegui. Havia um monitor. Perguntei se era para ver o caminho da sonda. O médico confirmou. E me mostrou a mini-câmera, que ia capturar a imagem através de uma espécie de fibra óptica. As enfermeiras tiravam meu soro e procuravam uma veia em meu pulso. Logo iam me anestesiar. Dessa vez seria parcial, da cintura para baixo. Nesse meio tempo, estava para decidir se entrava em pânico ou não. Com a pulsação nem alta e nem baixa, como se estivesse esperando por minha decisão. Achei melhor manter a calma. Afinal, era minha segunda vez. Na primeira, há quinze anos, tinha sido anestesia geral. Então não vi nada e só acordei horas depois, já no quarto. Dessa vez fiquei apenas sonolento. Devo ter tirado uma soneca. Não vi o procedimento. Mas acordei logo em seguida, numa espécie de centro de recuperação, ainda no centro cirúrgico. Estava de volta. Mas não sentia nada da cintura para baixo. Isso me deu um pouco de aflição. Não conseguia mover uma perna, um pé, nada. Os médicos e enfermeiras passavam para lá e para cá. Um deles me deu um frasco com uma pedrinha de cerca de meio centímetro (de diâmetro). Era o meu novo cálculo - que me tinha feito refém de cólicas renais insuportáveis. Entendi que logo que eu conseguisse mover as pernas, seria levado de volta para o quarto. Um pouquinho ansioso, mas paciente, esperei o tempo passar. E tudo deu certo, como previsto. Logo estava de volta ao quarto, podendo me mover à vontade. Sem mencionar o soro que uma enfermeira prestativa se encarregou de colocar de volta em meu braço esquerdo. Tinha os analgésicos e antiinflamatórios. Tudo bem. O pior tinha passado.

Parte II - A comédia


Na verdade não fiquei num quarto. Fiquei numa enfermaria. Havia outras duas camas. Uma tinha cada dia um paciente, nos três dias que fiquei lá. Outra tinha um paciente que aguardava uma operação já havia uns três ou quatro dias. E parece que sua operação só seria na próxima segunda-feira. Resultado: o coitado estava entediado. E perguntou se tudo bem caso sua esposa trouxesse uma TV ou um rádio. Por mim, não faz mal, concordei. Ela trouxe um rádio. Ouvimos os jogos da rodada de quinta, após minha volta do centro cirúrgico. Na sexta o tal paciente ligou o rádio logo cedo. Na Difusora FM. Lembra dessa estação? Foi a primeira FM que eu me lembro de ter ouvido, nos anos 70. Naquela época, era uma emissora da moda, voltada ao público jovem, e praticamente só tocava música americana. A ditadura não permitia que houvesse criação nacional. Para minha surpresa, essa emissora hoje em dia só toca música popular sertaneja, Roberto Carlos, country, aquelas jocosas de duplo sentido... Na realidade é outra emissora, que herdou somente o nome daquela anterior. Então imagine a minha cara ao ouvir aquele som. Bom, foi um exercício de tolerância. Que encarei com paciência. E boa vontade em me "atualizar". Vamos ver se lembro algumas pérolas:
Tocou uma que afirmava que "é na sola da bota, é na palma da mão...” Rio Negro e Solimões!
Outra dizia que "eu e minha mulher, a gente janta tarde, depois da uma...”
Também fiquei sabendo que "unha de gato" é um remédio "danado de bão" para artrite, artrose, e uma série de doenças inflamatórias.
Olha, foram tantas músicas bregas e músicas de corno, que imaginei que estava no Paraguai ou no México. Juro. Mas, para minha sorte, recebi alta antes de querer voltar para o centro cirúrgico.

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